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Mural de Poesias

Eu permaneço

Houve um tempo em que suportar tudo era chamado de virtude. Nos ensinaram a engolir o pranto, a resolver as dores da família, a administrar as ausências e a fingir serenidade enquanto o mundo lá fora se mostra hostil e violento contra cada mulher que ousa existir.

A dor das perdas recentes é real. A pressão das exigências diárias é exaustiva. E a indignação diante da violência que tenta nos diminuir a cada notícia não pode ser ignorada.

Mas a maturidade traz um limite sagrado: a consciência de que a nossa própria vida é território inegociável.


Carreguei o mundo nos ombros achando que meu papel era não ruir.

Mas o cansaço cobrou a conta da entrega inteira.

Perdas que não puderam ser choradas no tempo certo.

Olho para o que restou e não vejo ruína. Vejo eixo.

Minha existência não é moeda de troca.

Eu permaneço.


Não escrevo para pedir trégua. Escrevo para marcar o meu lugar no mundo. O choro cumpriu seu ciclo de acolher o que se foi; agora é o prumo que me sustenta. A mulher que construí ao longo de décadas não se entrega ao medo, não se anula por obrigação e não se desfaz para caber nas expectativas alheias.

Minha voz é raiz firme. O meu chão sou eu quem declaro.

Este é o primeiro texto do Mural de Poesias. Aqui vão chegar, com o tempo, poesias, crônicas e reflexões sobre a maturidade feminina, a reconexão interior e o equilíbrio entre o agir e o sentir.

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